Dos dias que nem precisam existir | Crónica Produções Fictícias

Publicado em Bem-Estar

Texto da Catarina Marques, Produções Fictícias. "Faz sentido porque reparamos que nos nasce um sorriso involuntário quando lemos “Inventei uma máquina de chilrear: tem bico, asas e penas."

Para escrever um diário é preciso usar dias que existam. É o mínimo. Registar aquilo que se vive conforme o calendário que se tem, pelo menos se formos de acordo com as regras. Só que regras é exatamente aquilo que uma rapariga que leva um jardim na cabeça dispensa, e é por isso que o O Livro do Ano, de Afonso Cruz, tem uma entrada dedicada ao dia 30 de Novembro.
Feitas as contas, não existe nenhum dia 30 de novembro. Mas também, feitas as contas, um homem já de barba não devia ter a sensibilidade de uma menina pequena que ainda luta com as pedras que lhe entram nos sapatos. E tem. Assim como, feitas as contas, um livro ilustrado (também por Afonso Cruz) que assume a forma de um diário de aforismos infantis não devia fazer tanto sentido para quem já não é criança. Mas faz.

Faz sentido porque reparamos que nos nasce um sorriso involuntário quando lemos “Inventei uma máquina de chilrear: tem bico, asas e penas. É muito parecida com um pássaro”, como ela escreve a 26 de Março; ou quando lemos que “nenhum homem é mais alto do que o seu chapéu. A não ser quando levanta os braços”, uma constatação registada a 19 de Abril. Faz sentido também quando em vez do sorriso nos põe uma ruga na testa, porque as sobrancelhas se levantam um pouco perante ideias que, de tão simples, nem sempre temos tempo de pensar: “Há coisas que não se podem guardar em frascos, como os beijos e os dentes que ainda não caíram e os pensamentos e a luz das velas.” E fará para os adultos um sentido diferente daquele que faz para as crianças. Ou melhor, fará sentidos diferentes de adulto para adulto, de criança para criança.

"...um livro transforma-se também num jogo."

Basta fazer o teste, ler algumas páginas em conjunto e assim, de forma tão natural, um livro transforma-se também num jogo. Ou numa janela de entendimento entre diferentes percepções. Ou num diário que, sendo de outra pessoa, se transforma mais e mais em nosso, a cada nova leitura das mesmas frases. Um livro tão plural como o seu autor, que escreve romances (ganhou o Prémio da União Europeia de Literatura em 2012), livros para crianças, ilustra, tem uma banda (procurar por The Soaked Lamb) e até faz cerveja em casa. Um homem do renascimento em 2013, que, mais a mais, em tão poucas frases consegue escrever sobre infância, literatura, filosofia e até velhice, para leitores de qualquer idade. Um luxo.

Catarina Marques
Produções Fictícias

Publicado em Bem-Estar